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ENXAQUECA: MUITO ALÉM DA DOR DE CABEÇA

Enxaqueca é uma doença neurológica complexa. Muitas vezes devido a alta prevalência desta doença na população, vemos as pessoas utilizarem o termo enxaqueca para se referir a qualquer dor de cabeça, como se enxaqueca e cefaléia (dor de cabeça) fossem sinônimos ou intercambiáveis quando na verdade não são.

Apesar de ter a dor de cabeça como um dos seus sintomas principais, a enxaqueca possui uma miríade de sintomas que vão desde alterações do sono, do equilíbrio, alterações sensoriais, gastrointestinais, cognitivas e até mesmo do humor, podendo inclusive haver crises de enxaqueca sem sequer a presença de dor de cabeça.

Então se você convive com esta doença ou tem interesse em aprender um pouco mais sobre o tema, vamos tentar esclarecer o assunto de forma simples para melhorar sua qualidade de vida, pois como em qualquer doença crônica (que dura muito tempo), entender a doença é o primeiro passo para controlá-la melhor.

A enxaqueca é uma disfunção do funcionamento neuronal. Indivíduos portadores de enxaqueca possuem neurônios que são mais sensíveis ao desequilíbrio entre excitação e inibição, por terem disfunções em seu metabolismo. Estímulos que seriam inocentes ao indivíduo normal, podem gradualmente se tornar intoleráveis para estes neurônios, aumentando sua disfunção e culminando por fim em um fenômeno chamado “depressão alastrante", onde uma verdadeira onda se alastra pelo cérebro, esgotando funcionalmente estes neurônios e tornando-os “nocauteados"por assim dizer.

Durante a fase que precede a depressão alastrante, quando temos desequilíbrio crescente no metabolismo neuronal, o portador de enxaqueca pode experimentar sintomas que chamamos de “Premonitórios" que começam algumas horas, ou até dias (dois ou três) antes da crise de dor de cabeça em si. Estes sintomas englobam bocejamento aumentado, alterações do humor como euforia, depressão e irritabilidade, uma compulsão enorme por comer alimentos específicos (que chamamos de “craving”), alteração da homeostase de líquidos com sede intensa e aumento da frequência urinária, hipersensibilidades sensoriais, sendo a mais comum a sensibilidade visual à luz (que chamamos “fotofobia”), alterações intestinais como constipação e sensação de "estômago embrulhado”, sensação de rigidez na musculatura do pescoço, dificuldade de atenção e concentração. Cerca de 77% dos enxaquecosos apresentam este tipo de sintomas, e eles podem ser tão ou mais incapacitantes que a própria dor de cabeça.

Quando se inicia a onda de hiperativação seguida de desativação prolongada por esgotamento (depressão alastrante cortical), os mais diversos sintomas neurológicos podem ser presenciados dependendo da área do cérebro que atinge. A área mais comumente atingida é a visual, onde os pacientes apresentam áreas de “cegueira"crescentes no campo visual, cercadas por pontinhos brilhantes em sua borda ( a isto chamamos “escotomas”). Curiosidade: esta é uma clara representação do fenômeno que está acontecendo no cérebro, onde os pontos brilhantes na borda são a manifestação dos neurônios hiperativados, e a cegueira no centro são os neurônios “nocauteados” por onde a onda já passou, conforme a área vai se expandindo, os pontos brilhantes passam a se tornar novos pontos cegos. Este fenômeno tem duração de cerca de 30 minutos a uma hora (podendo raramente durar poucos minutos ou até quatro horas), e tem por característica ser reversível após os neurônios se recuperarem. Estes sintomas ocorrem em cerca de 25% (20 - 40%) dos enxaquecosos, e os denominamos Aura enxaquecosa. Outras áreas podem ser afetadas além da visual: Aura sensitiva (onde o paciente vai experimentar formigamento e dormência, geralmente em mãos e face, de forma alastrante); Aura da linguagem, onde o paciente experimenta dificuldade de encontrar palavras, até incapacidade total de se comunicar e compreender e Aura motora, onde o sujeito pode até apresentar paralisia progressiva de um membro, ou até de um lado inteiro do corpo, Aura de tronco encefálico: com tontura intensa, vômitos e sonolência intensa.

Perceba que até agora praticamente não falamos de dor de cabeça. Pois bem, a onda de depressão alastrante também atinge o sistema sensitivo do crânio e da face, que é o sistema trigeminal, fazendo com que ele libere susbtâncias inflamatórios que sensibilizam os receptores de dor, produzindo então a dor de cabeça. Esta que é de moderada a forte intensidade, geralmente latejante, durando várias horas (mais do que quatro geralmente), usualmente acompanhada de náusea e por vezes vômitos, piorada por estímulos sensoriais como luzes, sons e odores (por razões já explicadas) e piorada pelo exercício (durante a crise), fazendo com que o indivíduo instintivamente busque um quarto escuro para repousar.

Após cessada a crise de dor de cabeça, o paciente experimenta uma sensação de exaustão mental e fadiga corporal, também apresentando sintomas neuropsiquíatricos, sensoriais, gastrointestinais e sistêmicos, muito semelhantes aos descritos na fase “premonitória”.

A esta fase chamamos de “Pósdromo” podendo durar de várias horas até um dia inteiro ou mais, esta é a fase mais recentemente descrita e menos estudada da enxaqueca, podendo sinalizar um período de “convalescência"neuronal ao estado basal.

Com isso espero ter resumido de forma simplificada as quatro principais fases de uma crise de enxaqueca: Fase premonitória, aura, dor de cabeça e pósdromo, lembrando que elas podem acontecer não necessariamente nessa ordem e até mesmo uma sem a outra. Enxaqueca é um distúrbio neuronal complexo, e muito ainda temos para aprender sobre essa fascinante condição que é uma doença séria e debilitante, sendo a segunda causa de incapacidade no mundo. Nosso crescente entendimento sobre essa condição esta levando ao desenvolvimento de novos e promissores tratamentos, tema que discorreremos em outra oportunidade.

Para quem quer se aprofundar no tema das origens e fenomenologia desta condição com uma leitura brilhante, recomendo o livro “Enxaqueca" do grande neurologista e escritor Oliver Sacks.

Disclaimer: Este texto é uma simplificação orientada para uma linguagem acessível aos pacientes e não se destina a uma discussão científica sobre o tema, tendo sido omitidos controvérsias e incertezas a respeito das teorias expostas.

Referências: UpToDate ®; Continuum: Lifelong learning in neurology ®

Para qualquer dúvida, estamos a disposição!

DR. FELIPE VENCATO - Neurologia - CRM/RS 41853 | RQE 34803

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